Metralhadoras não Amedrontam

Caminhando no Hyde Park no último domingo, cruzei com dois policiais empunhando metralhadoras. Nada normal por aqui. A polícia britânica não anda armada. Este ‘privilégio’ é reservado ‘a uma elite bem treinada e bem remunerada. Os policiais que patrulham as ruas ou respondem ‘a uma chamada de emergência, por exemplo, não carregam armas nenhuma. 

Daí meu espanto. Foi a 1a vez, em mais de 3 décadas por aqui, que vi metralhadoras num parque. Eu sei que a ameaça de ataques terroristas mudou os hábitos e requer a atenção de todos. Nos aeroportos e  estações de trem a gente se sente até aliviada quando os vê. Mas no Hyde Park?     

Desde 1987, posso afirmar com um certo consolo que só senti duas vezes aquela agonia que lhe torce a alma quando noticiam na TV tiroteios em massa: Agosto de 1987: Massacre de Hungerford. Usando um revolver e dois rifles semi-automáticos, Michael Ryan matou 16 pessoas e feriu outras 15 numa serie de ataques no mesmo dia. Março de 1996: Massacre na Escola em Dunblane. Thomas Hamilton matou 16 crianças e uma professora antes de se matar com uma das quatro armas que portava. (*se quiser saber mais ..)

Mas eu falava do meu passeio no parque. E dos policias caminhando lentamente, num papo acanhado e sereno que não era uma demonstração da famosa fleuma inglesa. Estavam eram em total controle da situação – não tirei fotos deles. Tive a tentação de  me aproximar e iniciar um papinho daqueles que ainda deixam os ingleses meio atônitos. Eles, na certa, teriam sido ‘agradecidos por agradar-me’, como tão bem descreveu Caetano Veloso (‘Pleased to please them’)  na sua famosa “London, London’, de 1971,  quando exilado na capital inglesa.  

Achei melhor estender-lhes a mesma cortesia a mim oferecida e continuar no meu próprio caminho, observando os engenhosos e curiosos esquilos e as centenas de pessoas pedalando, empurrando carrinhos de bebês, correndo, jogando bola, andando ‘a cavalo, tudo em dezenas de idiomas – alguns não identificados.  Tinha um grupo fazendo ioga, gente jogando tênis e até aulas de trapézio.  Ninguém nem aí pros policiais e suas metralhadoras.

É o que eu chamo de democracia viva e ambulante. Te dá uma sensação maravilhosa de pertencer ao planeta. Aquela alegria enorme que te inunda a alma. E pensar que nem mesmo os policias de metralhadoras te amedrontam. 

* Depois de Hungerford o governo baniu rifles semi automáticos e impôs severas restrições a posse de espingardas com capacidade para mais de três cartuchos. 

A resposta a Dunblane foi mais severa. O Relatório Cullen, em outubro do mesmo ano, propôs restrições à posse de armas e uma possível proibição. As famílias dos mortos e outros apoiadores lançaram uma campanha para proibir as armas de mão. No ano seguinte, o governo conservador, sob o comando de John Major, aprovou a Lei de Emendas de Armas de 1997, proibindo todas as armas de fogo com exceção das pistolas de carga única .22, usadas em esportes de competição. 

No mesmo ano, o governo trabalhista de Tony Blair estendeu proibição ,incluindo também as armas esportivas. A proibição também abrangia pistolas de tiro em branco que podem ser facilmente convertidas. Como resultado, o tiro de pistola de competição foi efetivamente banido no Reino Unido em 1997. Uma isenção foi concedida para as Olimpíadas de 2012, mas a equipe de pistola Olímpica do Reino Unido tem que praticar no exterior.

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