Reconhecimento fácil

Domingo: Andava eu por Kilburn High Street, norte de Londres, sozinha, a caminho do Kiln Theatre quando avistei caminhando na minha direção dois brasileiros. Não tinha duvida: falavam alto, gesticulavam um bocado, apontavam pra tudo. Eu de calça preta, pulôver de gola alta verde garrafa, tênis de dança preto. Muito discreta. Ao se aproximarem, eu na minha, quieta, como se não entendesse uma palavra, um deles interrompeu o papo, virou a cabeça e me apontou com o queixo. “Brasileira, né?”. Ooppss. Como dizem por aqui: ” Você pode tirar a menina do Brasil mas não consegue tirar o Brasil da menina”. Assentei com a cabeça, sorri, falei qualquer coisa que não me lembro e segui meu caminho.

Carter as Mr Carsson, Dontown
Abbey ao fundo

Meu destino era um dos melhores eventos que fui nestes quase 33 anos de Inglaterra. Não tinha roupa Gala, jantar de 5 pratos, champagne francesa e nem, esta é a melhor parte, vestido longo, salto alto ou maquiagem. Liderados pelo simpaticíssimo Jim Carter, o Mr Carsson, mordomo leal e ultra correto do estrondoso sucesso mundial Downton Abbey, dez atores, o roteirista e o produtor do filme Pride (vencedor do Queer Palm de Cannes em 2014) doaram a tarde para assistir ao filme e fazer um longo Q&A (Questions &Answers) com a gente – pagadores de um ingresso obviamente salgado. Tudo para apoiar este recém reformado espaço no norte de Londres.

Carter e sua mulher Imelda Staunton – mundialmente conhecida como Dolores Umbridge do Harry Potter, mas uma das mais premiadas atrizes britânicas, moram ali perto e organizam diversos eventos fund raisers pra os quais convidam seus amigos. Lucky us! (sortudos somos nós).

Estavam lá também: o roteirista Stephen Beresford, o diretor Matthew Warchus e os atores Andrew Scott, Bill Nighy, George Mackay, Jess Gunning, Freddie Fox, Liz White e Ben Schnetzer (único norte americano e que viera direto do aeroporto!) Carter é o charme personificado. Staunton delicada, refinada e transborda talento do seus 1,52m . Não dá para contar o que foi interessante. Eles discutiram o roteiro, a historia em si,* a escolha do cast, as filmagens, os malabarismos que fizeram para se manter no orçamento apertado. Mais de uma hora e quinze minutos! Me senti um potinho de amendoim na mesa do bar. Sem nenhuma briga pra falar mais do que o outro; não houve show de gírias, gracinhas, piadas de mau gosto. Foi Show! Literalmente. A melhor historia foi contada pelo impagável Bill Nighy. Segundo ele, que confessou ter amado o roteiro e jurado que não ficaria fora dele, só faltava uma frase pro filme ficar perfeito. E foi assim que Beresford adicionou a fala de Nighy : “Margaret Fucking Thatcher”.

Nighy contando sobre a inclusão da “Margaret Fucking Tatcher

Cada um levou alguma memorabilia de um filme ou serie de TV. Tudo foi leiloado no final, de uma vez só. Todos nos levantamos. Jim Carter foi enunciando quantias e íamos nos sentando quando havia passado do nosso orçamento. Não sei dizer o que me aconteceu. Não consegui me sentar. Não tinha o menor interesse em nenhum daqueles itens. Acabo de me mudar pra uma casa nova e me livrei de um monte de quinquilharia. Mas a cifra foi aumentando e eu ali, de pé, ciente de estar contribuindo para um montante cada vez maior a ser angariado. “Ok, estou fora. Pago metade disto e você pode ficar com todos os itens”. O famoso pago qualquer dinheiro pra sair disto. Foi o único jeito de me safar daquela situação. O cinema veio abaixo. Todo mundo aplaudindo. Me escondi na minha cadeira….. Queria que o chão abrisse. Não sou tímida, mas surtei com o inesperado centro das atenções. Me chamaram no palco….. Só piorava.

Muitos tapinhas nas costas, efusivos (ingles efusivo) agradecimentos, apertos de mão com todos. Queriam que eu fosse lá pro meio. Não havia a menor possibilidade de eu dar mais um passo sequer. Fiquei no canto. Bill Nighy e Jim Carter acabaram ficando também por minha causa .Affff. Depois do que me pareceu uma eternidade, descemos do palco, doei minha porção e fui convidada a participar do ‘get-together’ deles. Falamos mais sobre este filme extraordinário: uma comédia, seríssima baseado em fartos reais. . Se ainda não viu, não perca.

Ao assistir as notícias sobre a greve dos mineiros, o ativista gay Mark Ashton percebe que a polícia trocou o assédio à  comunidade gay para os mineiros em greve.  A 1a ministra Tatcher havia anunciado o fechamento de 20 minas, mis de 30 mil pessoas perderiam o emprego. Ashton organiza uma coleta e funda "Lésbicas e Gays Apoiam os Mineiros". Entre seus primeiros membros estão Joe Cooper, estudante de 20 anos e um casal gay mais velho, Gethin e Jonathan, cuja livraria (chamada Gay's the Word) eles usam como sede. A história é hilária, tocante e inspiradora. Logo depois do episódio (1984), o Partido Trabalhador incluir os direitos dos homossexuais no seu manifesto.
Andrew Scott explica que Pride é, sem dúvida nenhuma, o filme que mais lhe rendeu interesse.

10 Replies to “Reconhecimento fácil”

    1. Acabaram me oferecendo para escolher um. Escolhi a camiseta do Fleabag, oferecida pelo Andrew Scott. Aí a russa disse que queria também. Ficou tentando me convencer a escolher outra coisa. Então eu falei com os caras do teatro, expliquei a situação e perguntei se eles não conseguiriam arrumar outra camiseta. E o And Scott concordou imediatamente. Ai-ai. Aguardando pelo correio pois ele esqueceu em KLA 🙂

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